Eis aqui a famosa matéria de Hermano Vianna, citada no filme “Somos tão jovens”, o primeiro registro na imprensa fora da capital federal retratando a cena rock de Brasília. Foi a primeira reportagem falando das bandas Legião Urbana, Plebe Rude, Capital Inicial e XXX. A matéria saiu publicada em 1983. A revista era editada por Ana Maria Bahiana e José Emilio Rondeau. Lá se vão 30 anos.
Ai de ti, Brasília
Da capital do poder e do tédio, uma injeção de energia para sacudir as rachaduras. O cerrado contra-ataca
Por Hermano Jr.
Quem diria! Os primeiros punks brasileiros nasceram em Brasília, à sombra do poder, e eram quase todos filhos de figuras importantes do governo federal. Se você for um punk paulista ou carioca que gastou suas poucas economias prá comprar a Mixtura Moderna certamente estará com ódio desta afirmação. Você pode queimar a revista ou, eu prefiro, escrever uma carta injuriada dizendo que eu não entendo nada de punk. Tudo bem, eu já li vários fanzines paulistas que me dizem o que é ser punk, o que é anarquia e até mesmo como usar uma suástica. Não tenho nada contra as etiquetas sociais. Mas também não posso fazer nada se desde 77 alguns brasilienses adotaram idéias, roupas e comportamentos punks. O que caracteriza cada um desses itens? Quem tem a verdade do punk? Provocados desta maneira o pessoal de Brasília me responde: punk não é uniforme, cara, é revolta. E revolta não é privilégio do proletariado paulista ou do subúrbio carioca. Punk é uma revolta sem planos de guerra detalhados, sem líderes estrategistas. Afinal, a proximidade do poder (se você ainda entende o poder como aquilo que acontece no Palácio do Planalto) não torna nem mais fácil, nem mais difícil, combatê-lo. É necessário sempre reformular as táticas, renegar os rótulos, destruir o lugar comum. Não é por um acaso que os brasilienses, anotem o que eu estou dizendo, fazem o rock mais ousado deste país.


