21 Agosto, 2008

Philip Roth, a América e a arte de escrever

O escritor americano Philip Roth é um dos mais importantes nomes da literatura mundial contemporânea. Autor de obras consideradas sublimes e primorosas, como “Complô contra a América”, “Homem comum” e “Adeus Columbus”, ele concedeu uma entrevista imperdível à Folha de S.Paulo, publicada na edição desta quinta-feira. Roth fala de seu contato com a literatura brasileira e afirma que a América é um paradoxo. “Esse país é uma mistura de multidões e há muita sutileza, há uma sociedade de pessoas autoquestionadoras, inteligentes e intelectualmente sofisticadas”, “afirma. É claro que a maioria é burra, mas quando alguém de fora fala da América, eles estão falando sobre nosso mínimo denominador comum, talvez o mais óbvio, mas há muitas Américas”.

Para Roth, escrever é uma questão
de invenção, não de sentimento

Principal escritor norte-americano vivo diz que não
julga seus personagens e compara Machado a Beckett

NOEMI JAFFE

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM NOVA YORK

Um e-mail sobre a impossibilidade de conseguir uma entrevista, comparando-a à impossibilidade própria da literatura, fez com que Philip Roth aceitasse ser entrevistado, ele que raramente aparece em público. Um senhor alto, magro, que se mantém infenso a qualquer proximidade, Roth tem como resposta pronta: não. Não: a América não é um país de pessoas planas e convictas. Mas, ao mesmo tempo, não: na América, há muita gente atrasada. Com memória e inteligência monumentais, apesar da postura defensiva, Roth disse o quanto admira Machado de Assis, que comparou a Beckett, que a literatura não é feita de sentimentos, falou sobre seu último livro lançado em junho no Brasil, “Fantasma Sai de Cena”, e disse também não ter “um único osso religioso” no corpo. Em março do ano que vem, a Companhia das Letras lança no Brasil o novo romance do escritor, “Shop Talk”, ainda sem título em português.

Keep reading →

18 Agosto, 2008

Wenders, o futuro e Obama

Boa entrevista publicada nesta segunda-feira pela Folha com o diretor de cinema Win Wenders, um dos últimos autores do cinema mundial, cada vez mais encapsulado em clichês e fórmulas. Na entrevista, o diretor de “Asas do Desejo” e “Faraway, so close” - duas belas fábulas sobre anjos, a condição humana e os tempos modernos -, aborda a estética da violência nas telas, Barack Obama, o “sonho americano” e o futuro dos Estados Unidos. “Os EUA podem voltar a ser um país de esperança. Deveriam. Espero que consigam. Mas Obama terá de consertar um estrago terrível provocado por oito anos tristes, perdidos”, disse.

Na sexta-feira, o cineasta alemão será sabatinado no auditório da Folha, em São Paulo. A íntegra desse bate-apo deve ser publicada na próxima semana. Abaixo, a íntegra do “ponto a ponto” publicado hoje.

O diretor alemão, em SP; seu novo longa, 'Palermo Shooting' (filmagem em Palermo), ainda não tem data de estréia no pais. (Rafael Hupset/Folha Imagem)

O diretor alemão, em SP; seu novo longa, 'Palermo Shooting' (filmagem em Palermo), ainda não tem data de estréia no pais. (Rafael Hupset/Folha Imagem)


WIM WENDERS

Autor de clássicos do cinema como “Asas do Desejo” e “Paris, Texas”, diretor alemão está no Brasil para palestras e participa de Sabatina Folha na próxima sexta em SP; em entrevista exclusiva, analisa o presente e o futuro dos filmes

DA REPORTAGEM LOCAL

Nome cult do circuito cinematográfico, Wim Wenders diz que a era digital está deixando o cineasta e o fotógrafo numa situação delicada. O que difere o real do manipulado no mundo das imagens atualmente? Aos 63 anos, este americanófilo obcecado pelas novas tecnologias foi um dos últimos rebentos dos novos cinemas que explodiram nos anos 60 (nouvelle vague à frente, cinema novo na periferia). Renovou a linguagem cinematográfica, fazendo uma releitura dos clássicos americanos. Hoje, depois de uma relação malsucedida com Hollywood, reconhece que seu sonho americano acabou e se diz um “alemão romântico”. Precursor do cinema independente americano (com o qual tem uma relação tensa), um símbolo para os modernos desde os 80, passou recentemente por uma recepção fria no Festival de Cannes (com “Palermo Shooting”) e se prepara para testar o cinema de terror no Japão, onde filmará em breve uma adaptação de “Miso Soup” (Cia. das Letras), de Ryu Murakami, escritor e cineasta japonês. Wenders, que presidirá o júri do próximo Festival de Veneza, está no Brasil para participar do seminário Fronteiras Braskem do Pensamento, com conferências hoje, em Porto Alegre, e quarta, em Salvador. Na próxima sexta, às 16h, a Folha promove uma sabatina com o cineasta, com participação de Walter Salles. A seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva concedida pelo diretor.

Keep reading →

15 Agosto, 2008

Uma poesia

Bilhete de identidade

Mahmoud Darwish

Escreve!
Sou árabe
e o meu bilhete de identidade é o cinquenta mil;
tenho oito filhos
e o nono chegará no final do Verão.
Vais zangar-te?

Escreve!
Sou árabe.
Trabalho na pedreira
com os meus companheiros de infortúnio.
Arranco das rochas o pão,
as roupas e os livros
para os meus oito filhos.
Não mendigo caridade à tua porta,
nem me humilho nas tuas antecâmaras.
Vais zangar-te?

Escreve!
Sou árabe.
Sou um homem sem título.
Espero, paciente, num país
em que tudo o que há existe em raiva.

As minhas raízes,
foram enterradas antes do início dos tempos
antes da abertura das eras,
antes dos pinheiros e das oliveiras,
antes que tivesse nascido a erva.

O meu pai descende do arado,
e não de senhores poderosos.
O meu avô foi lavrador,
sem honras nem títulos,
e ensinou-me o orgulho do sol
antes de me ensinar a ler.
A minha casa é uma cabana,
feita de ramos e de canas.
Estás feliz com o meu estatuto?
Tenho um nome, não tenho título.

Escreve!
Sou árabe.
Roubaste os pomares dos meus antepassados
e a terra que eu cultivava com os meus filhos;
não me deixaste nada,
apenas estas rochas;
O governo vai tirar-me as rochas,
como me disseram?

Escreve, então,
no cimo da primeira página:
a ninguém odeio, a ninguém roubo.
Mas, se tiver fome,
devorarei a carne do usurpador.
Tem cuidado!
Cuidado com a minha fome,
Cuidado com a minha ira!

* Galileia, Israel. 13 março, 1942
+ Houston, Estados Unidos. 10 agosto, 2008.

15 Agosto, 2008

Um disco do Finis Africae

Mixwit

15 Agosto, 2008

Um dia melancólico

Sexta-feira difícil.

15 Agosto, 2008

Uma canção: “A message”

my song is love
love to the loveless shown
and it goes up
you don’t have to be alone

your heavy heart
is made of stone
and it’s so hard to see clearly
you don’t have to be on your own
you don’t have to be on your own

and i’m not gonna take it back
and i’m not gonna say i don’t mean that
you’re the target that i’m aiming at
and i get that message home

my song is love
my song is love unknown
and i’m on fire for you clearly
you don’t have to be alone
you don’t have to be on your own

and i’m not gonna take it back
and i’m not gonna say i don’t mean that
you’re the target that i’m aiming at
and i’m nothing on my own
got to get that message home

and i’m not gonna stand and wait
not gonna leave it until it’s much too late
on a platform i’m gonna stand and say
that i’m nothing on my own
and i love you, please come home

my song is love, is love unknown
and i’ve got to get that message home

(Chris Martin/Coldplay)

14 Agosto, 2008

O velho rockabilly está vivo. Na Inglaterra

A capa do disco

A capa do disco do jovem trio londrino

A venerável Bretanha não se cansa de reciclar o bom e velho rock’n'roll. Ainda que aqui e ali acabem reciclando lixo, às vezes, são capazes de mostrar que é possível fazer o básico de maneira honesta. Como esses três jovens adolescentes ingleses, os irmãos Kitty, Daisy & Lewis. O trio tem entre 15 e 20 anos.

Fui atrás dos caras depois de ver uma dica de show deles no lendário 100Club de Londres. Aí, fuçando daqui e dali, achei um vídeo deles no YouTube, que está abaixo. E o veterano Kid Vinil, em seu blog, declarou amor aos garotos.

Segundo Kid, os irmãos começaram a tocar há sete anos incentivados pelo pai e sua coleção de “roots” do rock and roll que incluiam aqueles antigos bolachões de 78 rotações. “Nesse meio tempo o trio aprendeu a tocar vários instrumentos”, escreveu.

Abaixo, o vídeo dos moleques, como se estivéssemos em plenos anos 50, esperando Elvis, Gene e Buddy virem nos salvar. Em tempo, o disco saiu em vinil.

14 Agosto, 2008

Agora vai: STF libera mais um de Dantas

STF concede liberdade a Hugo Chicaroni, último preso da Operação Satiagraha

Marco Antônio Soalheiro
Da Agência Brasil

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Eros Grau, acolheu hoje (14) pedido de extensão de habeas corpus apresentado pela defesa do professor universitário Hugo Chicaroni, acusado de tentar subornar um delegado da Polícia Federal, a pedido do banqueiro Daniel Dantas, para livrá-lo das investigações da Operação Satiagraha. Com a decisão, não há mais nenhum preso nessa operação.

Na última terça-feira (12), Grau havia concedido liberdade ao ex-presidente da Brasil Telecom Humberto Braz, também apontado como emissário de Dantas na tentativa do suborno. Os dois aparecem em gravação que mostra uma negociação entre ambos e o delegado da Polícia Federal Vítor Hugo Rodrigues.

Chicaroni conseguiu o direito à liberdade após permanecer detido mais de um mês. Ele estava preso em São Paulo desde o dia 8 de julho, quando a Operação Satiagraha foi deflagrada. Naquele dia os agentes federais apreenderam R$ 1,2 milhão na casa do professor, dinheiro que seria usado, segundo o MPF (Ministério Público Federal), para o pagamento de propina às autoridades policiais.

Na última quinta-feira (7), em depoimento ao juiz federal Fausto De Sanctis, Chicaroni disse que a tentativa de suborno foi “um flagrante preparado” pelo delegado Protógenes Queiroz, ex-coordenador da Operação Satiagraha. Segundo os advogados do professor, não houve oferecimento de dinheiro, mas um pedido de suborno por parte dos próprios delegados da PF.

14 Agosto, 2008

Nassif aponta: “De Sanctis é a bola da vez”

Reproduzo, abaixo, um texto do jornalista Luís Nassif sobre os desdobramentos do depoimento do empresário Daniel Dantas, feito na quarta-feira à CPI dos Grampos, no Congresso Nacional, na chamada grande imprensa. Nassif aponta que não houve, nesta quinta-feira, nenhuma coluna de um dos jornalões com críticas ao papel de Dantas, que foi à CPI, falou o que quis e não foi admoestado por nenhuma alma. Enquanto isso, o juiz federal Fausto De Sanctis, responsável pelos dois mandados de prisão do banqueiro, recebe severas críticas do prestigiado colunista Clóvis Rossi, da Folha.

Comentário meu: é a inversão total de papéis. O sujo posa de santo e o justo, de rôto. Isto é Brasil.

A bola da vez

Daniel Dantas declarou que não foi ele quem contratou a Kroll para espionar inimigos: foi a Brasil Telecom. Pouco importa se, na época, era controlada por ele.

Deixou claro que a peça central de sua defesa é trazer para o Brasil o inquérito do Ministério Público italiano sobre a atuação da Telecom Itália lá. Aliás, o inquérito chegou e não tinha nada sobre a atuação da Telecom Itália aqui.

Declarou ter “recebido uma informação” de que a operação Satiagraha foi ordenada pelo diretor geral da Abin, delegado Paulo Lacerda. Não disse de quem veio a informação, não disse quais elementos dispunha para comprovar sua veracidade. Disse não se lembrar sobre quem tinha passado a informação para ele.

Mesmo assim, mereceu manchete de capa da “Folha”: “Ação da PM foi represália de diretor da Abin, diz Dantas” pela matéria sobre as supostas contas de autoridades brasileiras no exterior. E mereceu chamada de capa do “Estadão”: “PF mirava até filho de Lula, diz Dantas”.

E quem disse isso é a mesma pessoa que afirmou que não tinha nada a ver com os grampos da Kroll: que a responsabilidade era da Brasil Telecom – que até minha filha caçula sabia que era controlada por ele.

Keep reading →

11 Agosto, 2008

The Verve: Love is noise

Saiu nesta segunda-feira, no mercado europeu, o novo single da banda inglesa The Verve. Trata-se de “Love is noise”, o mais recente petardo da gloriosa trupe liderada pelo cantor Richard Ashcroft.

Há algumas semanas, postei o vídeo do quinteto, via YouTube, aqui mesmo no blog. A música é adorável, com loopings e gritos, além de um refrão inesquecível - para o bem e para o mal.

Infelizmente, o lançamento do single - nos formatos CD e duas versões em vinil de 7″, não está disponível no Brasil. Mas, anime-se. Vá ao site da HMV e encomende o seu vinilzinho. Só precisa estar com o espírito preparado. A brincadeira sairá cara: 55 libras. É uma facada.

A outra hipótese é recorrer a amigos ingleses ou… Procurar na internet na faixa MP3. E baixar.

Eis as faixas:
CD Single
01. Love Is Noise
02. Chic Dub

7” Single (Gatefold)
A01. Love Is Noise
B01. Let The Damage Begin (Live 2007)

7” Single
A01. Love Is Noise
B01. A Man Called Sun (Live 2007)

10 Agosto, 2008

O NYT, a guerra no Cáucaso e Bush

Uma reportagem de Helene Cooper, publicada hoje no New York Times, faz uma análise interessante sobre o conflito entre Geórgia e Rússia por conta da Ossétia do Sul e o que está por trás da inação do presidente americano George W. Bush.

Leia abaixo:

Conflito na Geórgia dá uma lição sobre
a dependência americana da Rússia

Helene Cooper

Washington - A imagem do presidente Bush sorrindo e conversando com o primeiro-ministro da Rússia, Vladimir V. Putin, nas arquibancadas das Olimpíadas de Pequim mesmo enquanto as aeronaves russas bombardeavam a Geórgia, define a realidade da política norte-americana em relação à Rússia. Enquanto os EUA consideram a Geórgia seu maior aliado no bloco dos antigos países soviéticos, Washington precisa tanto da Rússia em assuntos maiores como o Irã, para arriscar tudo isso em defesa da Geórgia.

Autoridades do Departamento de Estado deixaram claro no sábado que de nenhuma maneira os Estados Unidos iriam intervir militarmente.

Bush usou uma linguagem dura, pedindo que a Rússia parasse com os
bombardeios. E a secretária de Estado Condoleezza Rice demandou que a Rússia “respeitasse a integridade territorial da Geórgia”.

Keep reading →

10 Agosto, 2008

Um clique: a dor no Cáucaso

Gleb Garanich/Reuters)

Vida e morte em Ossétia do Sul, na fronteira da Rússia com a Geórgia. (Foto: Gleb Garanich/Reuters)

A guerra entre a Rússia e a Geórgia pelo controle da região separatista da Ossétia do Sul ganha graves contornos. As agências internacionais de notícias falam na morte de pelo menos 1.500 civis e há indicações de que as vítimas podem chegar a 2 mil.

7 Agosto, 2008

A mais completa entrevista de Rogério Duprat

O maestro Rogério Duprat, em Londres, ainda nos anos 70

O maestro Rogério Duprat, em Londres, ainda nos anos 70

Reproduzo, abaixo, aquela que considero a mais ampla entrevista concedida pelo maestro Rogério Duprat, falecido há dois anos, concedida aos jornalistas Fernando Rosa, editor da Senhor F, e Alexandre Matias. Um primor de conversa bem humorada, equilíbrio, revelações, inclusive sobre sua vida em Brasília, como professor da UnB, e uma parte fundamental da história do rock e da música popular brasileira.

Abaixo, a entrevista:

Rogério Duprat, arranjos e aval estético para a irreverência juvenil

* Fernando Rosa e Alexandre Matias

No início da década, Alexandre Matias, Fernando Rosa e o então editor da revista Bizz, Emerson Gasperin, foram recebidos pelo maestro Rogério Duprat em seu apartamento, em São Paulo. Ambiente simples, quase modesto, foi palco de uma das entrevistas mais importantes da revista Senhor F nestes dez anos de existência e, por certo, também da revista Bizz, onde saiu em forma de texto, sem o ping-pong que reproduzimos aqui. Com um gravador no centro de uma mesa redonda, e perguntas em voz bastante alta, devido a surdez acentuada de Duprat, diversos mistérios da história do rock brasileiro foram desvendados.

Keep reading →

5 Agosto, 2008

No bolso

O candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, Barack Obama, não tardou a bater mais forte no rival, o republicano John McCain. Depois de ser espicaçado como “celebridade”, Obama resolve entrar na briga e qualifica o adversário como um aliado incondicional de George W. Bush e da indústria petrolífera, mostrando as contribuições dos barões do setor - cerca de US$ 2 milhões - para a campanha republicana. Melhor. Obama instiga o eleitor americano a pensar bem na hora de votar, já que “depois de termos um presidente no bolso das grandes companhias de petróleo não podemos ter outro”. Muito boa. A conferir a tréplica nesta terça ou quarta-feira.

4 Agosto, 2008

Obama é o escolhido, mas…

…estará pronto para liderar?

A provocação foi lançada pelo candidato republicano John McCain, que manda artilharia para derrubar o rival democrata, Barack Obama, da liderança na corrida presidencial americana.

Lá, nos States, a campanha é muito mais animada, como se pode notar…

Enquanto isso, nestas plagas a briga eleitoral anda assim, digamos, chocha…