Na edição de hoje, o jornal Correio Braziliense entra na polêmica levantada pelo antropólogo Mércio Pereira Gomes, comentado aqui no blog, sobre o filme que está correndo na internet a cerca da campanha contra “a prática do infanticídio” entre índios da Amazônia. Na reportagem do jornalista Leonel Rocha, a Funai tenta impedir a veiculação do filme, que está no Youtube. Segue a íntegra da reportagem.
Choque de culturas
Leonel Rocha
Da equipe do CorreioFUNAI tenta impedir veiculação de filme que integra campanha de combate à prática de infanticídio entre tribos da Amazônia. Para a entidade, produção generaliza tradições de forma inadequada
A FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO (FUNAI) estuda qual instrumento jurídico vai utilizar para impedir, na Justiça, a divulgação do filme Hakani pela internet e emissoras de televisão brasileiras. Com 36 minutos de duração, o misto de documentário e drama conta a história de duas crianças indígenas enterradas vivas por terem nascido com deficiências físicas e faz parte da campanha contra o infanticídio nas tribos da Amazônia. O ritual ainda é praticado por várias tribos, inclusive os Suruwaha, etnia que vive às margens do Rio Purus, no Amazonas, onde a história do filme se passa. Era nessa aldeia que vivia a menina Hakani. “A FUNAI está tomando providências para que o vídeo seja retirado do site YouTube, pois entende que o conteúdo denigre a imagem das mais de 220 etnias que vivem no Brasil”, diz a nota da instituição.
Hakani é o nome da menina que nasceu com hipertiroidismo e, por não ter o desenvolvimento físico esperado pela tribo, foi enterrada viva, mas salva pelo irmão mais velho. Depois de abandonada pela família, a criança foi adotada pelo casal de lingüistas Marcia e Edison Suzuki. A menina, que completa 13 anos na próxima segunda-feira, vive e estuda em Brasília. Com versões em português e em inglês, o filme relata, com pequenas adaptações, a história de Hakani e pode ser assistido no site www.hakani.org, criado para ser a principal peça da campanha contra o infanticídio entre indígenas. A história da pequena índia foi revelada pelo Correio no ano passado.
A FUNAI considerou “escusa” a origem do filme e teme a generalização inadequada de uma tradição indígena. A fundação admite acionar a Polícia Federal para investigar a legalidade da realização do trabalho. Encarregada pela tutela dos indígenas brasileiros, a direção da entidade entende que a questão abordada pelo vídeo precisa ser tratada em uma ampla discussão sobre os direitos humanos universais e a relatividade cultural deles, envolvendo governo, organizações indígenas e a sociedade em geral. A FUNAI conhece a pratica, mas garante que não é comum a todas as etinias e, mesmo entre as que ainda a adotam, já há alternativas de adoção das crianças doentes por outras famílias para evitar as mortes.
Interferência
Com cenas consideradas exageradamente fortes e até criminosas por antropólogos, o filme foi produzido pela organização não-governamental (ONG) Atini - palavra que significa voz pela vida - e financiado pela instituição evangélica Jovens com um ideal (Jocum), que tem sede nos Estados Unidos e vários escritórios no Brasil. A instituição se especializou na evangelização dos índios e no resgate de crianças marcadas para morrer nas tribos por serem portadoras de necessidades especiais.
O ex-presidente da FUNAI Mercio Pereira Gomes pediu a interferência da PF, do Ministério da Justiça e até do Supremo Tribunal Federal para impedir a divulgação do filme. “A encenação é criminosa. Os autores têm que ser processados e os demais responsáveis punidos rigorosamente”, protestou Mercio.
Além das cenas na suposta aldeia Suruwaha, o documentário mostra depoimentos do juiz Renato Mimessi, de Rondônia, defendendo a campanha. Também aparece nas cenas o deputado Francisco Praciano (PT-AM), declarando, durante sessão da Comissão de Direitos Humanos, que a Constituição brasileira não foi feita para índios. O congressista reclamou. Segundo ele, a campanha agride a cultura indígena. “A prática indígena assusta o homem das cidades. Mas também assusta a interferência de entidades religiosas que querem alterar a cultura dos povos indígenas, criminalizando uma prática que ainda não sabemos entender”, protestou.
Megaprodução
Com produção digna dos grandes filmes de ficção e dirigido pelo cineasta americano David Cunningham (A última das guerras), o documentário informa que se trata de “uma história verídica”. Foi rodado em janeiro em uma fazenda da Jocum, nos arredores de Porto Velho (RO), com a participação de índios de várias etnias que vivem fora das aldeias e trabalharam como atores. Em algumas tomadas, foi utilizado até um helicóptero para simular uma ventania. Para filmar o enterro das crianças ainda vivas, a produção utilizou um imenso bolo de chocolate para simular a cova. Com roteiro de Kevin Miller, e narração em português da atriz Irene Ravache, o trabalho teve co-produção do brasileiro Enock Freitas e os cineastas aceitaram trabalhar no filme como voluntários, segundo a Jocum.
Os índios que atuaram no filme receberam cachês, mesmo sendo amadores. “O direito à vida é mais importante que o direito de preservar as tradições. Todas as culturas evoluem e precisamos superar essa prática terrível”, comentou o índio Eli Ticuna. Ele, junto com a mulher e os filhos, atua nas filmagens. No fim do filme, a menina aparece contando como está a vida dela hoje, já tratada da doença.



2 Comentários
16 Julho, 2008 em 2:17 pm
O comentário do dep. Francisco Praciano (PT-AM), de que “A prática indígena assusta o homem das cidades. Mas também assusta a interferência de entidades religiosas que querem alterar a cultura dos povos indígenas, criminalizando uma prática que ainda não sabemos entender”, é no mínimo irresponsável. Matar crianças não pode ser entendido como prática dos índios q os brancos não entendem.
5 Agosto, 2008 em 7:37 pm
Diversas sociedades humanas, ao longo do tempo histórico, sempre praticaram algum tipo de contenção populacional. Nas sociedades indígenas, em geral, tal contenção manifesta-se na manutenção de um determinado número de membros aptos a desenvolverem as suas atividades sociais, de maneira a preservarem a manutenção física do grupo.
É incrível que determinadas pessoas, embaladas por suas convicções religiosas ocidental e cristã sintam-se tão estarrecidas com o chamado “infanticídio” praticado por algumas tribos brasileiras.
Esquecem-se, propositalmente, do infanticídio diário praticado nas grandes cidades contra contigentes enormes de crianças e adolescentes que foram simplesmente jogados nas ruas, vítimas de abusos da população e de grupos de extermínio. Contra esse tipo de infanticídio esses “nobres cristãos” não se manifestam, preferindo que o poder policial e judicial se lance contra os selvagens que há séculos tem essa prática como instrumento de manutenção do grupo social.
Do mesmo modo, esses piedosos religiosos não se manifestam indignadamente contra os crimes cometidos diariamente contra crianças e adolescentes brancas, negras, mulatas, pardas, vítimas de abusos sexuais, violência doméstica, exploração sexual e de trabalho, etc, entre outros crimes.
Hábitos culturais só podem ser modificados através de novos hábitos culturais que não podem ser simplesmente impostos, mas tem de ser inseridos com a anuência dos grupos que os praticam.
Não é através da imposição pura e simples de mecanismos coercitivos, como o desejam os “piedosos cristãos” que querem combater a prática do infanticídio entre as tribos indígenas brasileiras que tais práticas serão coibidas.
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