A segunda parte da matéria especial com a trajetória da banda
Como o grupo deixou Brasília em busca do sucesso
E as canções do primeiro single, gravado em 1985
Ainda em 1983 o Capital Inicial descia para São Paulo em busca de novos palcos e oportunidades para ganhar a audiência. Em abril, Dinho Ouro Preto, Flávio Lemos, Fê Lemos e Loro Jones se apresentam no Sesc Pompéia durante o evento Hardcore Rock Night. Logo em seguida, o quarteto volta para a capital, para mais shows, dividindo os palco com as bandas irmãs e seguindo para o Rio de Janeiro, apresentando-se no Circo Voador (RJ).
Em seguida, regressam a Brasília e gravam a primeira demo no estúdio Gravasom, no Brasília Rádio Center, registrando a canção Descendo o Rio Nilo. A demo é encaminhada à Rádio Fluminense FM. A canção cai no gosto dos ouvintes e é incluída na programação normal da famosa rádio, considerada fundamental para a cena independente dos anos 80 e 90.
No final de 1984, os quatro assinam contrato com a CBS (atual Sony) e se mudam para São Paulo, lançando no início do ano seguinte o primeiro single com as canções Descendo o Rio Nilo e Leve desespero, que você ouve aqui embaixo.
O quarteto também viria a integrar a coletânea Os Intocáveis, lançada meses depois pela CBS, ao lado da brasiliense Banda 69 e as paulistanas Zero e RPM. No mesmo ano, o grupo emplaca na trilha sonora do filme “Areias Escaldantes”, dirigido por Neville D’Almeida, ao lado do Ultraje a Rigor, Ira! e Lobão.
A banda faz o circuito de shows em São Paulo e Rio e a receptividade cada vez maior leva o grupo a se preparar para a gravação do disco. Mas a CBS dá para trás. O contrato não incluía um LP, apenas a “promessa” e o lançamento do compacto. Em entrevista à Bia Abramo, Loro se revoltaria, anos depois, recordando-se das ciladas no início da carreira: “A gente era uns burros. O cara disse que nós não éramos acessíveis e tentou ensinar para a gente a fórmula do sucesso”.
A fórmula incluía a apresentação em dois programas de televisão considerados execráveis: Flávio Cavalcanti e Hebe Camargo. Para quem cantava em Brasília libelos punks como Psicopata – “Se aparece o Francisco Cuoco/ Adeus televisão/ Televisão…” – seria difícil explicar o que os quatro estariam fazendo no Flávio Cavalcanti, um antiquado apresentador de televisão conhecido nos anos 70 e 80 por quebrar ao vivo, em seu programa de auditório, os discos considerados por ele condenáveis. Ou seja, um conservador que ainda vivia com a cabeça nos tempos da ditadura militar.
A recusa da banda em buscar promoção nesses programas leva a CBS a dificultar ainda mais a vida da moçada, fazendo corpo mole na divulgação do compacto nos programas de rádio e televisão. A gravadora ainda se recusava a incluir num possível disco canções como Veraneio Vascaína e Fátima. O repertório é recusado por três vezes pela direção artística da gravadora, que insistia em vender a banda com um gostinho mais palatável. Comercial mesmo.
O inferno duraria mais um ano – tempo em que os velhos companheiros da cena brasiliense, Plebe Rude e Legião Urbana, já haviam gravado os discos O Concreto Já Rachou e Legião Urbana. A rescisão do contrato com a CBS foi inevitável – uma banda que se antecipou ao desgaste prolongado com a gravadora foi a paulistana Zero, que pulou fora do barco bem antes do Capital, gravando com a EMI. “Depois de um ano de batalha, dando shows só com um compacto, a gente saiu vencedor”, disse Dinho. “Mas eu não passaria por isso de novo”.
Calejado, o grupo busca uma relação mais arejada com a indústria fonográfica e depois de receber algumas propostas – inclusive da EMI – acabam assinando com a Polygram (hoje Universal). Era final de 1985 quando a banda consegue obter a garantia de que o desejado disco seria feito sem interferência direta da gravadora, que deu carta branca aos quatro para que gravassem todo o repertório da banda, incluindo as malditas.
O primeiro disco
Capital Inicial, o disco, é gravado entre janeiro e março de 1986, com uma bela capa, onde os quatro aparecem como vultos clicados por Iço Ouro-Preto. “São onze músicas com onze climas diferentes”, explica Dinho. “A gente não repete freqüentemente os ritmos e, em essência, nossas influências são inglesas pós-1977″.
A produção do LP é assinada por Bozo Barretti, músico profissional em São Paulo e ex-editor da revista Violão e Guitarra e que já vinha da bem-sucedida produção do disco Tubarões Voadores, de Arrigo Barnabé. Responsável pelos arranjos, Bozo retirou o peso da banda e colocou metais e teclados, onde só haviam guitarras e a cozinha dos Lemos.
Para os antigos fãs, o disco soou estranho. Não parecia o Capital que levava o público candango ao delírio. Um disco muito pop para uma banda tida como punk entre os brasilienses. Para quem não conhecia, foi uma bola dentro. Capital Inicial foi lançado em julho de 1986 e ganhou rapidamente mais e mais público. Em apenas um mês, a banda vendeu 40 mil cópias do disco. Em seis meses, o disco iria alcançar a marca invejável de 250 mil cópias vendidas. Os quatro integrantes da banda começavam a ganhar status de popstars.
“Tínhamos músicas suficientes para um álbum triplo e esse primeiro LP parece “The best of Capital Inicial”, um Golden Hits”, afirma Dinho, na sua faceta pouco modesta, em entrevista concedida a Luiz Antônio Melo. Todas as canções vinham dos tempos de Brasília, com exceção de Cavalheiros, feita já em São Paulo. O hit do disco é Música Urbana, velha música dos tempos do Aborto, que entra até para a trilha de uma novela da Globo. Por ironia, havia sido essa mesma canção que a direção artística da CBS considerou insossa.
A Polygram aposta alto e anuncia o disco em jornais e revistas: “Capital Inicial. O Estilingue do Ano”. A banda toca em todas as rádios de Norte a Sul do Brasil, mesmo tendo o disco uma das composições – Veraneio Vascaína – vetadas pela Censura Federal e sendo lacrado ao público. “Ao censurarem Veraneio, eles (do governo) deram um tiro que acabou saindo pela culatra”, ironizaria Dinho. “Com essa tarja que eles botaram (venda proibida a menores de 18 anos) a única coisa que eles fizeram foi fazer com que o nosso disco vendesse mais”.
“O selinho que vem na capa do LP (‘proibido para menores de 18 anos’) mais contribui para o charme da banda”, registrou Bia Abramo ao fazer a resenha do disco em artigo para a revista Bizz. “Um rock limpo, vigoroso, dançante e sobretudo competente, a quilômetros de distância da mesmice que assaltou a música pop brasileira nos últimos tempos”, define o jornalista Mário Nery na crítica do disco publicada na Folha de S.Paulo.
Mesmo o LP sendo lançado apenas em julho de 1986, a banda começaria a testar o disco nos palcos antes mesmo. Em abril, os quatro se apresentam ao lado da Plebe Rude e outras bandas brasilienses no aniversário da capital, em um evento que reuniu cerca de 40 mil pessoas na Esplanada dos Ministérios, em frente ao Congresso Nacional. O mesmo local em que o Capital, 22 anos depois, colocaria nada menos que 1 milhão de pessoas para ouvir seu velho repertório, renovado pelos hits que o consagraram e fizeram dela a mais popular banda brasileira deste século 21.
Naquele mesmo mês de abril de 1986, os quatro fariam uma ótima apresentação no Ginásio do Palmeiras, em São Paulo, abrindo o show para o Ira! e a Legião Urbana. Em junho, dividiriam o palco do Projeto SP com a banda carioca Biquíni Cavadão.
Em agosto de 1986, passam pela prova de fogo: vêm a Brasília para o lançamento do disco e se apresentam no Circus Show ao lado do Finis Africae, que acabara de lançar seu primeiro trabalho solo. A banda faz uma grande performance e Dinho começa a se mostrar um excepcional entertainer.
Em outubro, os quatro se apresentam novamente no Projeto SP, dessa vez para comemorar, novamente, outro recorde: 75 mil cópias vendidas. Em novembro, recebem o Disco de Ouro pela vendagem de 100 mil cópias, e seguem para o Rio, tocando no Morro da Urca. No final daquele ano, ainda iriam para Porto Alegre, subir ao palco do ginásio do Petrópole Tênis Clube, em evento promovido pela Ipanema FM.
Guinada pop
Quando o ano de 1987 surgiu no horizonte do Capital Inicial, Dinho já havia adquirido status de sex-symbol. A banda efetivaria logo no início do ano o seu quinto integrante: Bozo Barretti. Com o gesto, confirmavam que a guinada do grupo para o pop era mesmo para valer. A postura indignada e os arroubos punks – nem sempre sinceros – passam a ser, definitivamente, coisa do passado. “Isso já acabou”, declara Fê. “O futuro é funk”, aposta Loro Jones. O sucesso parecia consolidado.
Em meados de julho, o quinteto entra novamente em estúdio para gravar o segundo LP. Independência foi lançado estrategicamente em 7 de setembro. Barretti parece exercer cada vez mais influência sobre a banda, ampliando os teclados, presentes em todas as faixas do disco, e acentuando o tom descaradamente pop. Estranhamente, nas entrevistas à imprensa, o grupo já nem se considera mais de Brasília. “Não somos o Capital Inicial, de Brasília”, informa Fê à jornalista Bia Abramo. “O fato da gente não falar mais que é de Brasília não nega tudo que passamos”, explicava Dinho. “Hoje nos consideramos uma banda brasileira: tocamos de Norte a Sul”. Hmmm… Algo estava errado.
A banda ainda chega a apostar em entrevista um discurso meio sem pé nem cabeça, com tons de revolta. “Caguei para esse mercado babaca”, declara Loro. “Estou cagando e andando para essa porra de gravadora. Estou cagando para tudo. Acredito no meu trabalho”. “Têm algumas pessoas que acham que rock é só aquela coisa visceral, da guitarra mais pesada… Esses caras vêem este universo muito fechado”, vaticinava Fê. “O Capital é um grupo pop”.
De acordo com a banda, Independência falava do dilema do século 20: a individualidade. Dinho ganharia em seguida uma capa da revista Bizz. O álbum é, novamente, disco de ouro. Seria o último da banda na década de 80. Nas rádios, as faixas estouradas seriam a faixa-título e outras duas antigas: Prova e Descendo o rio Nilo.
Em seguida, a banda é convidada a abrir os shows do inglês Sting, que fazia uma turnê pelo Brasil naquele ano. O quinteto chacoalha 40 mil pessoas no estádio Independência, em Belo Horizonte; 30 mil pessoas no Mané Garrincha, em Brasília; e mais e mais pessoas no Rio, Porto Alegre e São Paulo. Mas o encanto parecia estar se desfazendo. Só a banda não percebia. As drogas pareciam ter um peso grande no conjunto, que começa a se desleixar com o som. Dali para frente, tudo desandaria.
Tecnopop
Em 1988, o Capital Inicial mergulha fundo no tecno-pop e lança Você não precisa entender, o disco que levou os antigos fãs a torcerem o nariz. Apesar das ótimas músicas – Ficção científica (outra velha canção do Aborto Elétrico), A portas fechadas, e a baladaça Fogo –, a falta de punch tornava-se evidente. O grupo se ressente da crítica, que cai de pau no trabalho.
Depois, o próprio Fê reconheceria que a banda estava produzindo um “pop de plástico” naquela época. Dinho também confessou que achava este o pior disco da banda. O álbum vende pouco e, para piorar as coisas, Dinho sofre um acidente automobilístico sério em São Paulo, que deixou cicatrizes.
Recuperados do acidente, no ano seguinte o quinteto lança o quarto disco Todos os lados, puxado pelo hit Belos e malditos, composição que mais uma vez leva a assinatura de Renato Russo, em parceria com o Alvin L. (ex-Rapazes de Vida Fácil e Sex Beatles). A banda também participa do Hollywood Rock, no início de 1990.
O disco vende ainda menos, devido em parte à crise econômica e a adoção da música sertaneja como trilha sonora para a odisséia do príncipe das Alagoas, Fernando Collor, alçado à Presidência da República. A banda não consegue renovar seu contrato e acaba sendo transferida para a BMG, aproveitando para redefinir um pouco o som do grupo, reduzindo a participação de Barretti.
O Capital Inicial tenta a redenção em 1991 com Eletricidade, único disco produzido pela BMG, mas cujas vendas patinam nas 30 mil cópias, apesar da boa acolhida de parte da crítica. O álbum foi puxado pela versão de Passenger, de Iggy Pop e Todas as noites.
Os rapazes ainda fazem uma boa apresentação no Rock in Rio 2, e realizam ao longo do ano cerca de 170 shows – incluindo uma passagem desagradável ocorrida em Paraíba do Sul, no interior de fluminense, quando a banda partiu para o tapa com os seguranças do clube local, que não permitiam a presença da empresária no palco.
Rachas e tensões internas
Em 1992, Bozo Barretti deixa a banda, após sérios desentendimentos com Fê, Flávio e Loro. Os três, mais Dinho, ainda realizam apresentações ao longo daquele ano. Mas é o vocalista quem parece agora estar por demais insatisfeito com o Capital Inicial e (a falta de) rumos traçados.
“Todas as irritações, impaciências e disputas que caracterizam um casamento depois de alguns anos, também acontecem dentro de um grupo”, analisaria em artigo publicado oito anos depois pelo zine eletrônico TantoFaz. “De um modo geral acho que foi isso que me levou um dia a decidir que eu queria o divórcio do Capital”, afirmou, justificando que não conseguia ver personalidade própria na banda. “Estávamos sempre atrás da Legião, éramos sempre ‘a outra banda de Brasília”‘, constata.
Fê declara ao jornalista Paulo Marcchetti – autor do livro A Turma da Colina –, que foi surpreendido, junto com Loro e Flávio, por uma nota publicada no Jornal do Brasil, no início de 1993. Ali, Dinho informa que estava se preparando gravar um disco solo. “Estávamos ensaiando depois das férias e as coisas ficaram estranhas, porque as músicas que tínhamos feito com Dinho, no final de 1992, que ele mesmo tinha apresentado pra gente, não estavam mais sendo mostradas”, recorda o baterista. “Então começamos a tocar outras coisas, com letras que eu tinha feito e músicas do Flávio e do Loro. Ficamos lá ensaiando até o final de abril, quando o Dinho parou de ir aos ensaios”.
A saída foi “chata” – na opinião de Fê - por causa da nota no jornal. “Eu, Flávio e Loro conversamos e decidimos falar com ele. Nós queríamos gravar o disco, tínhamos esse objetivo e soubemos que ele não queria grava-lo. Aí o comunicamos que iríamos fazer o disco sem ele”, relata.
A gota d’água ocorreu em maio, depois de um show no Circo Voador. “Houve uma discussão no camarim por causa de uma música (I wanna be your dog, dos Stooges) que incluímos no set list e que Dinho não queria cantar e ele não queria cantar porque não lembrava da letra, mas acabamos tocando e, depois do show, rolou um quebra pau no camarim”, lamenta. Naquela mesma noite Dinho confirmaria que não estava disposto a gravar o novo disco.
O quarteto continuaria a cumprir a agenda de shows até junho daquele ano, buscando um novo vocalista. Encontraram Murilo Lima, apresentado pelo empresário do Charlie Brown Júnior, Pipo. A nova voz do Capital vinha egresso da banda Rúcula, mesma banda em que tocou Walter Villaça (guitarrista de Cássia Eller) e já tinha passado pelo U2 Cover. O produtor do primeiro e único disco da Rúcula foi ninguém menos que Bozo Barretti. A BMG, contudo, não bancou a produção de um novo disco sem Dinho. Os quatro optaram por se auto-produzir, mas a barra pesou.
“Preferimos gravar um disco primeiro, pra depois procurar gravadora. No final de 1993 começaram as gravações e lançamos o disco Rua 47 em 1994″, disse Fê a Paulo Marcchetti. “Fizemos um acordo com uma distribuidora de discos e, a partir disso, começamos a trabalhar intensamente. Voltamos a tocar pelo Brasil inteiro, fizemos uma festa de lançamento, mandamos todo o material pra imprensa e cumprimos todo o ritual de uma gravadora pequena, achando que teríamos um acesso a mídia, mas as portas se fecharam. Sentimos o poder da grana, íamos as rádios e tinha que ter jabá, mas não tínhamos dinheiro”.
Pesado, Rua 47 é de fato um grande disco, repleto de guitarras. “É um disco tenso”, confirma Fê. O grupo segue fazendo dois shows por semana, em média, pelo país com o novo vocalista, que é bem recebido pela platéia, apesar das insistentes perguntas sobre a volta de Dinho aos vocais. “Sempre perguntavam dele, mas pra gente aquela era uma situação definitiva”, recorda Fê. O passo seguinte foi a gravação de um disco ao vivo – o primeiro da banda -, chamado, simplesmente, Ao Vivo, gravado em Santos.
Enquanto isso, Dinho lança o seu projeto solo – a banda Vertigo, ao lado do guitarrista Kuaker (egresso do Yo-ho-delic), o baixista Mingau (ex-Inocentes e atualmente no Ultraje a Rigor) e o baterista Arnaldo. “No começo eu não me continha de entusiasmo”, recorda Dinho. “Era o recomeço e, a princípio, as dificuldades pareciam ser até estimulantes, afinal era um desafio e tanto”. Mas logo os mesmos problemas que existiam no Capital começaram a surgir também no Vertigo. “Brigas, rivalidades e discordâncias”, comenta. A banda gravou o disco homônimo, lançado pela Rock It!, o selo de Dado Villa-Lobos.
Os desentendimentos com os novos companheiros o levaram a lançar a carreira solo no ano seguinte, quando grava o disco Dinho Ouro Preto, lançado também pela Rock It!. A música que puxa o disco é Marcianos invadem a Terra, mais uma música inédita de Renato Russo. O disco, entretanto, não acontece pelo mesmo motivo que o seu anterior: má distribuição.
O Capital Inicial sem Dinho enfrenta sérios problemas, com o fim da relação empresarial que a banda mantinha com Maria Inês, mulher de Fê e sócia de Fabiana, mulher de Loro. As duas funcionavam como managers, de fato, da banda. O casamento de ambos se desfaz nessa época.
As coisas ficam ainda mais difíceis quando, em outubro de 1996, morre Renato Russo. “Renato foi, ao mesmo tempo, nosso carrasco e salvador”, declarou Dinho à revista Showbizz. “Sua sombra era muito opressora: só a morte dele nos libertou”. Nesse mesmo ano, a Polygram lança a coletânea O melhor do Capital Inicial, que para surpresa de todos – inclusive da banda – vende nada menos que 100 mil discos em apenas oito meses. O terreno para o reencontro dos quatro parecia estar pronto.
O recomeço
“Entramos em 1997 com Loro dizendo que seria o empresário do Capital”, relembra Fê. “Fizemos dois shows e ficou todo mundo sem grana”. Depois de declarar aos velhos amigos que a banda só voltaria a dar certo se Dinho voltasse, Loro resolve se mudar para onde tudo começou: Brasília. “Eu achei um absurdo e o Flávio foi totalmente contra”, conta o baterista. “Porra, não podíamos fazer uma coisa dessas com Murilo, que tinha vestido a camisa e feito muito pelo Capital Inicial”.
Sem Loro Jones, Fê, Flávio e Murilo convocam temporariamente outros titulares para a vaga de guitarrista. “Ele deu um tempo porque queria voltar a tocar com o Dinho e pôs na nossa mão a decisão de continuar o Capital sem ele”, recorda Fê. Três shows são realizados com guitarristas provisórios: Yves Passarel (ex-Viper) e um show com o Luís Carlini (ex-Tutti Frutti). Passarel, ao final de 2002, assumiria a posição de Loro Jones, que deixa a banda após a turnê do Acústico.
O reencontro com Dinho acabou rolando apenas em 1998, após uma série de conversas entre os quatro para aparar arestas e retomar a banda com novas perspectivas. “Eu mantive contato constante com o Dinho nesse tempo que ele esteve fora do Capital e o chamei para voltar”, rememoraria Loro, em entrevista dada ao Fã Clube Oficial de Belo Horizonte do Capital Inicial. “Mesmo com a sensação de que muito de bom saiu dessa experiência, como a minha saída da banda, hoje acho que foi um engano”, reconhece Dinho. “Por um motivo simples: eu poderia ter feito tudo isso sem largar o Capital, que, mal ou bem, é minha maior realização musical”. “Aos poucos, a gente viu que era melhor juntar todo mundo de novo”, comenta Loro. “Não podíamos jogar fora 15 anos de história”.
O reencontro acabou acontecendo no Bar Supremo, em São Paulo, quando os quatro decidiram que era chegada a hora de comemorar os 15 anos da banda, pegando a estrada e fazendo shows em Florianópolis, Belo Horizonte, São Paulo e, claro, Brasília. No repertório da banda, além dos grandes hits, versões para Até quando esperar, da Plebe Rude, Que país é este?, da Legião Urbana, e Armadilhas, do Finis Africae.
A receptividade é tamanha que os quatro voltam a receber propostas para o retorno à indústria fonográfica. Em agosto, a banda se reúne em Brasília fazer os ensaios necessários para entrar no estúdio. Dinho, Loro, Flávio e Fê topam a parada e assinam em setembro um contrato com a Abril Music para a gravação de três discos. Ainda naquele ano, a Polygram lança o CD Remixes, com sucessos da banda retrabalhados por DJ’s, entre eles Memê.
Para o novo disco – Atrás dos olhos – a Abril Music convida o produtor norte-americano David Z. – que soma no currículo sua participação em discos de Prince e do guitarrista Buddy Guy – e banca os custos da gravação no templo da country music: Nashville, no Tennesse (EUA). Em novembro sai o CD, com lançamento posterior em Portugal e Espanha. O disco é saudado pela crítica e vende 80 mil cópias, mostrando belas canções e – depois de muito tempo – nenhuma música de Renato Russo. Entre os convidados especiais que participam do disco está um velho chapa: Philippe Seabra, guitarrista da Plebe Rude, que toca em Religião.
A banda ganha os palcos de diversas cidades do país, impulsionada pelos hits O mundo, 1999 e Eu vou estar, que tocam nas rádios de todo o país, levando-os a um público mais jovem e que desconhecia a história da banda. Nos shows, a química entre os quatro funciona bem, com Dinho mostrando-se em plena forma.
Em março de 2000, a banda entra em estúdio para ensaiar o resultado do novo projeto: um CD Acústico para a MTV. No dia 21, no Teatro Mars, os quatro tocam para uma seleta platéia – fãs e convidados ilustres – alguns dos seus grandes sucessos, como Música urbana, Leve desespero, Fátima, Belos e malditos e O Passageiro, além de três inéditas: Natasha, Tudo que vai (primeiro single de trabalho) e Primeiros erros, música de Kiko Zambianchi, que acompanharia a banda durante toda a turnê. A cantora Zélia Duncan, outra brasiliense ilustre, participa de Eu vou estar.
“No início não pensávamos em fazer o Acústico, mas começamos a pensar na razão de um disco ao vivo”, revelaria Fê. “Nossos quatro primeiros discos estão fora de catálogo e isso foi um dos principais motivos”. Mais humildes e amadurecidos, reconhecendo os erros do passado, os quatro voltam a fazer o velho e bom rock, mas sem deixar espaço para radicalismos. O projeto não apenas vinga como impulsiona a banda para um patamar muito elevado, que eles jamais sonharam desde que retornaram: 1 milhão de cópias vendidas.
Após a longa turnê do trabalho Acústico, o quarteto, agora com Passarel o lugar de Loro, que deixa a banda e volta para Brasília, o grupo volta ao estúdio e lança um disco vigoroso, com timbres mais fortes de rock nas guitarras. A entrada de Yves Passarel dá um gás a Fê, Flávio e Dinho, que lançam Rosas e vinho tinto. O disco é bem recebido e o sucesso sorri novamente aos rapazes, que vêem A sua maneira e Mais estourarem nas rádios. Em tempos de dureza para a indústria fonográfica, por conta do MP3, o disco vende bem, com a gravadora registrando mais de 200 mil cópias vendidas.
Dois anos depois, pilhados pela turnê vitoriosa, os quatro lançam Gigante!, sem maiores pretensões. Na seqüência, o Capital decide exumar o Aborto Elétrico, na esperança de virar uma página da história dos três remanescentes da formação clássica do grupo. Dinho, Fê e Flávio voltam para o baú adolescente e desenterram velhas canções do Aborto Elétrico. O resultado é um disco cru, com produção de Rafael Ramos, alguns bons punk rocks da lavra de um adolescente Renato Russo. A MTV assume a distribuição e lançamento do trabalho, que ganha versão em DVD. O projeto dá espaço a uma nova turnê, consagrada em todo o território nacional. Para a molecada, o disco Aborto Elétrico, homenagem póstuma a Renato Russo, permite o acesso a um material vigoroso do bardo de Brasília.
Em 2007, o grupo lança Eu nunca disse adeus, que renderia ainda mais uma turnê arrebatadora pelo país e um Prêmio Multishow 2007 ao Capital Inicial na categoria Melhor Grupo. Nada mal para quem nem imaginava voltar a enxergar as cores do sucesso depois de quase arruinar a carreira. O quarteto é dos poucos grupos de pop/rock em todo o mundo que pode se dar ao luxo de ter renascido como uma fênix depois de ter se incinerado no volátil mundo pop.



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