O jornalista Luís Nassif, no blog que mantém no Ig, desferiu neste final de semana uma bomba contra a revista Veja: trechos do relatório do delegado federal Protógenes Queiroz, que conduz as investigações sobre possíveis crimes cometidos pelo empresário Daniel Dantas, suas ligações no meio político e jornalístico. Nassif transcreve trechos do relatório que aponta as ligações do banqueiro do Opportunity e o colunista Diogo Mainardi, de Veja, além de outros profissionais dos chamados grandes veículos da imprensa nacional.
No final da noite de domingo, o veterano jornalista fez um balanço da gestão de Eurípedes Alcântara e Mário Sabino à frente da revista da Abril. Ele avalia que o uso do arsenal escatológico da revista contra adversários, políticos, empresários e também jornalistas já provocou um estrago na imagem da editora Abril que dificilmente será restabelecido com facilidade.
Pelo tom que Veja adotou na edição deste final de semana, em que desanca as ações da Polícia Federal, coloca seu canhão contra o delegado que apura o caso Dantas e vislumbra ilicitudes do diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), o experiente delegado federal aposentado Paulo Lacerda, os ataques não vão parar. A metralhadora giratória da revista ainda vai fazer mais estragos.
Veja finge que faz jornalismo. Questiona a todos os que investigam Dantas, mas não assume a defesa do empresário. E nunca menciona que foi ela, a revista da Editora Abril, quem publicou o famigerado dossiê, mesmo sem ter provas, acusando Lacerda, o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de manterem contas no exterior. A história ganhou contornos de escândalo. Mas era mentirosa.
O dossiê foi publicado por Veja, que recebeu o papelório de ninguém menos que… Daniel Dantas. O mesmo com quem agora ela finge não ter mantido uma relação, digamos, no mínimo promíscua, nos últimos anos. Uma relação íntima, usada pelo banqueiro para detonar aqueles que lhe prejudicavam. E Veja aceitava atirar na reputação desses a quem, por circunstâncias quaisquer, Dantas enxergava um obstáculo. Ou um empecilho na sua guerra por dinheiro e poder.
A simples citação – leviana ou não – de jornalistas, ou parajornalistas - no caso de Mainardi - no relatório de Protógenes, vai tornar mais tensa a agora conturbada relação entre a grande imprensa e PF. O certo é que, no calor da cobertura, o principal prejudicado será o leitor. O leitor da grande imprensa, bem entendido. Como sempre. É que no afã de defender coleguinhas, apontar possíveis arbitrariedades do delegado, questionar as suspeitas lançadas contra jornais e jornalistas, não haverá nos jornalões quem possa separar o joio do trigo para o leitor.
Esse papel cabia antes à imprensa. Mas, nos últimos anos, ao quererem se transformar em agentes políticos da história nacional, os jornalões, colunistas e repórteres ultrapassaram a barreira que lhes cabia, o papel de analistas e observadores da história para ganharem o status de protagonistas. Passaram a oferecer visões distorcidas da realidade, carregando as tintas na hora de retratar um caso apenas porque o retratado é um inimigo de classe. Ou o adversário político do banqueiro de ocasião.
Nessas horas, esqueceram do bom jornalismo: ouvir sempre o outro lado. Publicar as versões do fato. Ouvir mais de uma fonte. Vislumbrar que a realidade não é monolítica, que interesses comerciais e eleitorais estão sempre na mesa. E que cabe à imprensa alertar ao leitor o que está se passando nesse tabuleiro que é o mundo dos negócios bilionários, cuja gestão está na mão dos políticos da vez. Agora, em momentos como este que vivemos, não há como o leitor colocar um pé atrás e deixar de questionar: quem está com a verdade? Lembrem-se, políticos passam. As instituições ficam.
Aos cidadãos resta acompanhar, nas próximas semanas, os desdobramentos e a repercussão de todo esse imbróglio, certamente o mais escandaloso a envolver negócios suspeitos conduzidos por empresários dublês de alcapones. Será necessário prestar atenção nos próximos passos dos delegados federais, juízes e procuradores. Sem deixar de ignorar que existe a possibilidade de nos depararmos com o descortinar de uma relação espúria e imunda entre jornalistas e fontes. Algo que transcende a relação ética entre essas duas pontas. Essa linha tênue que separa os interesses do leitor com os outros interesses. Nessas horas, quando tal linha é rompida, repórteres tropeçam e nada mais parece tão certo ou errado.
Preparem-se, leitores. São momentos históricos pelos quais o país vai atravessar daqui para a frente.
A República não será mais a mesma. Podem apostar.
Leia, abaixo, o texto de Nassif:
Os estertores
A luta está chegando ao fim. O que se tem agora são estertores do pior jornalismo que este país já conheceu em muitas décadas. A Abril estava esperando baixar a poeira para pensar em mudanças inevitáveis na revista Veja. Demorou, o furacão chegou e o preço a pagar será cada vez mais alto. Cada semana de Eurípedes Alcântara e Mário Sabino será mais saque sobre o ativo de imagem da revista.
Agora é apenas aguardar o sangramento até que a Abril encontre a oportunidade adequada para promover as mudanças e tentar recuperar a revista. Tenho cá para mim que o desgaste já chegou a um ponto de não-retorno.
Ainda se levará bom tempo para avaliar o que esse período de esbórnia, essa violência pornográfica, a falta de escrúpulos tentando compensar a falta de talento, produziram na maior revista brasileira.
A quebra de imagem é irreversível e não apenas entre os leitores mais esclarecidos – cuja ficha caiu há muito tempo. A falta de qualidade das matérias, a carência de pauta, a repetição monocórdica de escândalos mal apurados, mal escritos, a truculência, a arrogância, o exercício sistemático das armas da injúria e da difamação já bateram no leitor comum. Mais ainda nas redações.
Veja já foi uma revista admirada. Depois, passou a ser temida – o que de pior pode acontecer com qualquer forma de poder. Agora é ironizada. A incapacidade de fugir do ritual amador dos ataques destrambelhados, a impotência em trabalhar competentemente qualquer tema de peso já entraram para o terreno da galhofa. Pior: a cara da revista não é mais seu corpo de jornalistas, dos mais bem pagos do país. O modelo da gestão Eurípedes resumiu-se à criação de dois atiradores: um pilantra e um desequilibrado, incensados em suas cartas ao leitor, como se fossem a síntese do corpo editorial da revista. É tudo o que se produziu de novidade nesses anos desastrosos.
Indague-se de qualquer jornalista da grande imprensa, das assessorias de comunicação, da assessoria das grandes empresas o que representa a Veja, para eles. Lixo! Indague-se dos jovens candidatos a jornalistas cursando Faculdades, o que pensam da Veja. Lixo! E não é força de expressão. É a expressão corrente. É inacreditável que só agora tenha caído a ficha da Abril.
Eurípedes Alcântara e Mário Sabino entrarão para a história do jornalismo brasileiro pelo maior anti-feito de que se tem notícia: em poucos anos, arrebentaram com o maior ativo da Editora Abril, a imagem da revista Veja.
Os futuros manuais de jornalismo tratarão de estudar por muitos anos, como se fossem fósseis da pré-história jornalística, a troca despudorada de favores – eu-te-elogio-tu-me-elogias -, a tentativa de transformar uma pessoa medíocre no “oráculo de Ipanema”, a manipulação de listas de livros para auto-promoção, o uso de desequilibrados para inibir os críticos, a terceirização da reportagens para esquemas de corrupção, do qual o mais influente foi o de Daniel Dantas. Comportaram-se como donos de botequim ante uma Editora que perdeu completamente o controle sobre a gestão da opinião – o maior ativo de que dispunha.
Eurípedes Alcântara e Mário Sabino entram para a história do jornalismo nacional como o melhor anti-exemplo para as novas gerações: conseguiram desmoralizar a falta de escrúpulos. Durante anos, os alunos sairão das Faculdades sabendo que ambos se enterraram por terem desprezado princípios elementares de jornalismo, não terem conseguido se desvencilhar da armadilha da prática diuturna da difamação, por terem apelado para pistoleiros da reputação para se defenderem de ataques contra sua incapacidade de fazer jornalismo.
Para não repetirem a sina, só haverá uma alternativa para os estudantes: estudar e se esmerar no aprendizado permanente do bom jornalismo.



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