Vinícius Torres Freire: o salvacionismo na Suprema Corte
Na discussão em torno dos grampos de uma conversa do douto ministro Gilmar Mendes, que resultou no afastamento temporário do delegado Paulo Lacerda da direção da Abin, o jornalista Vinícius Torres Freire, da Folha de S.Paulo, chama a atenção para o comportamento do presidente do Supremo Tribunal Federal. Em artigo publicado nesta terça-feira, Freire lembra dos pendores autoritários e atrabiliários de Gilmar Mendes desde os tempos da Advocacia Geral da União no governo Fernando Henrique Cardoso. Segue a sugestão de leitura.
Infâmias, leviandades e grampos
Vinícius Torres Freire
Onde o presidente da Corte Suprema de Justiça pode chamar o presidente da República “às falas”? Num país em que o presidente da República diz que o mensalão foi uma campanha de “infâmias e leviandades” contra seu partido. Onde o presidente legisla à matroca, por meio de decretos provisórios, e o Judiciário usurpa o Poder Legislativo, em atos e falas? Num país em que o Congresso se dedica a coisas como o mensalão e a eleger Severino Cavalcanti e Renan Calheiros para presidir suas Casas.
O fim de semana foi rico em disparates institucionais, e não em “crise institucional”. A ignorância e a vulgaridade mais uma vez barateiam a expressão a fim de dar nome ao que é um caso de polícia, grave, mas um caso de polícia. Trata-se aqui, claro, do grampo nas conversas do presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e do senador Demóstenes Torres, do Democratas, e talvez de muitas outras autoridades da República. As manifestações que se seguiram à revelação da patifaria em parte são compreensíveis, dada a gravidade política do assunto, e a indignação e o sentimento de ultraje são mais do que esperados de quem se vê espionado. Mas o episódio diz mais. Conecta-se a um crescendo de distorções que são, estas sim, sinal de degradação institucional, mais crônica do que crítica.
Mesmo descontada a indignação, Mendes passou dos limites ao atropelar até seu declarado apreço pela presunção de inocência. Se disse que o presidente tem de ser chamado “às falas”, é porque atribui culpa a alguma repartição do Executivo e, por tabela, a Lula. Mendes tende a passar dos limites políticos e constitucionais porque tem inclinação para fazê-lo, pendor notado desde que se comportava de maneira autoritária e atrabiliária na Advocacia Geral da União, sob FHC. Mas torna-se desimpedido para fazê-lo devido à degradação dos outros Poderes. Na semana passada, Mendes organizou em uma palestra suas idéias sobre o intervencionismo judiciário.
Criticou o “salvacionismo” e as “exacerbações” de Ministério Público, CPIs e polícia, mas parecia sugerir, talvez inadvertidamente, que agora é o momento de extravagância da Corte Suprema. “Mas é evidente que, em alguns casos, a inércia legislativa acentuada, sem nenhuma solução, exige que se quebre também a própria inércia judicial”, palestrou.
O Judiciário é desacreditado por ser lento, por aturar a chicana e por ser elitista, alguns dos fatores que estimulam a impunidade, que propicia canalhices como o grampo.
Mas, na sua seara, a Corte Suprema tende à inércia. Na política, é ativista por meio de decisões e da falação desenfreada dos ministros do Supremo, que interferem na atividade de poderes eleitos. O ativismo voluntário do Supremo é inconstitucional -juízes só podem agir quando provocados porque não foram eleitos.
Por falar nisso, trata-se de problemas do Judiciário que o próprio Mendes quis atacar, de forma porém imprópria, quando advogado-geral. Dizia então que “o autismo é um mal complicado do Judiciário” (ainda é) e chegou a mandar carta para ministros do Supremo de então, criticando declarações anônimas à imprensa, entre outras tentativas de interferir indevidamente em outras instituições da República.
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