8 Maio, 2009...1:21 pm

Imprensa: crise e credibidade

Ir aos comentários

* Olímpio Cruz Neto

A imprensa mundial está em crise. Como vêm apontando jornalistas, especialistas, estudiosos da mídia e até mesmo alguns veículos da imprensa, o jornal está perdendo leitores. Nos Estados Unidos, como indicou André Petry em reportagem publicada na Veja da semana passada, os jornalões agonizam. Aqui, a perda de leitores é contínua, embora os donos de jornais não estejam de pires na mão. Ainda. É que o problema aqui é muito mais complexo do que a oferta abundante de notícias gratuitas pela internet.

Eugênio Bucci, que presidiu a Radiobras ainda no primeiro governo Lula e é um dedicado estudioso dos meios de comunicação, publica um longo artigo no Observatório da Imprensa desta sexta-feira, 8 de maio. Aborda, a partir da entrevista publicada pelo Estadão com o veterano mestre Gay Talese – domingo, capa do Caderno 2 -, uma questão central: por que precisamos de jornais?

Segundo Talese, na entrevista concedida a Lúcia Guimarães, os jornais ainda são necessários. Eis a resposta de um dos pais do new journalism: “Porque no prédio de qualquer redação de um jornal respeitável, a qualquer momento, há menos mentirosos por metro quadrado do que em qualquer outro prédio. Há mentirosos nos jornais também, mas em menor número. Nos prédios do governo, nas escolas, nas instituições científicas, nos estádios de esporte, nas fábricas, a mentira circula num grau mais alto. Os jornais estão mais interessados na verdade, mesmo se cometem erros, às vezes, erros involuntários”, disse Talese. A resposta é lúcida, mas para explicar a realidade brasileira ainda está incompleta. O problema aqui é que, apesar das redações terem menos mentirosos, agora temos menos credibilidade.

No Brasil, os jornais vêm perdendo tiragem. De maneira vertiginosa. A Folha, nos anos 90, chegou a ter inacreditáveis 750 mil exemplares de tiragem aos domingos; hoje não tem 300 mil. Estadão caiu de 391 mil, há dez anos, para 217 mil em 2009. O Dia, do Rio, despencou de 261 mil para 91 mil em menos de uma década. Em Brasília, o Correio Braziliense, que nos anos 90 teve tiragem de quase 100 mil nos bons tempos de Ricardo Noblat, não chega agora a 53 mil. Os jornais ainda não agonizam, mas vêm perdendo força. Os números podem ser encontrados na edição 1356 de Meio & Mensagem, que circulou no final de abril com base nos relatórios do Instituto Verificador de Circulação (IVC).

Além da perda de leitores pela concorrência da internet, os jornais estão cometendo erros toscos de avaliação, jogando fora a reputação quando manipulam as informações. Isso vem sendo desmascarado pelo fenômeno da blogosfera – o trabalho de Luís Nassif, Luiz Carlos Azenha, Paulo Henrique Amorim, Idelber Avelar e outros grandes articulistas entrincheirados na internet – ainda está restrito a uma boa, mas importante, parcela de formadores de opinião. Ainda bem. Mas nem toda a opinião pública se informa apenas pelos blogues. E a parcela que consome o noticiário acriticamente não se deu conta desse problema central.

Cabe fazer alguns reparos ao fenômeno da crise dos jornalões. Cada vez menos leitores dedicam-se a comprar jornais para saber notícias. Parte do problema é que muito do noticiário oferecido nos diários é velho. Leitores que acompanham as notícias pela internet ou televisão já sabem o que vão encontrar nos jornais: o mesmo que foi noticiado ontem.

Claro que existem honrosas exceções nas edições diárias. Ainda há furos de reportagem, novidades, o olhar atento do repórter e jornalistas que se arriscam a fazer boas análises. Mas isso não tem sido a tônica. Pelo contrário. Raras vezes a notícia no jornal ganha o peso necessário para explicar os fenômenos sociais, políticos, econômicos e culturais. O problema é um só: falta REPORTAGEM! Sobra opinião, mas falta informação objetiva. Nas grandes revistas, abundam adjetivos e faltam substantivos.

Os jornais estão presos a uma fórmula ilógica. Noticiam o que ocorreu ontem, que também foi noticiado ontem pelas agências de notícias. O leitor atento soube na véspera pelo rádio, tevê ou internet o que é a notícia. Para quê então vai comprar o jornal no dia seguinte? Em vez de oferecerem ao leitor no dia seguinte o algo mais, o passo além para que ele compreenda a dinâmica e a dialética do que é a notícia, os jornais gastam páginas e mais páginas a esboçar aquilo que o leitor atento da internet já sabe.

Ora, se o leitor típico de jornal no Brasil é de classe média alta, disposto a gastar uns caraminguás diariamente para adquirir informações honestas, precisas e bem apuradas, não é de se suspeitar que esse sujeito que está no topo da pirâmide social não é o mesmo que tem computador em casa? Portanto, não é o sujeito melhor informado? O que é preciso dar a ele? Análises dos fatos e notícias em primeira mão. É isso que os jornais estão dando?  Nem sempre. O lance é que os jornais estão errando mais agora do que nunca. E parte dos formadores de opinião está mais exigente e encontrou na internet vazão para uma leitura crítica da mídia.

No tempo em que trabalhei na Folha de S.Paulo, ainda nos anos 90, uma notícia como a que envolveu há poucas semanas a ministra Dilma Rousseff na suposta trama montada pelo grupo VAR-Palmares, ainda nos anos de chumbo, para seqüestrar Delfim Netto, resultaria na demissão do repórter e uma retratação pública do jornal. A notícia sobre a ministra era infundada. As provas documentais que ajudaram a embasar a reportagem foram forjadas por fontes não-confiáveis e a entrevista do personagem principal que sustentaria a matéria foi distorcida.

A demissão em casos assim seria feita sumariamente. E o repórter, desmoralizado. Pelo menos era o que resultaria se fosse seguida atentamente as diretrizes do Projeto Editorial da Folha, uma espécie de totem na redação do jornal. Isso era antigamente. Hoje em dia, o jornal diz que não disse, avalia que o documento reproduzido não teve sua autenticidade confirmada, alega que tampouco pode dizer que é falso, faz de conta que está tudo bem e toca a vida para frente. Apesar das ressalvas do ombudsman Carlos Eduardo Lins e Silva. Hmmm… Será?

Jornalismo independente era o mote da mídia nos anos 80 e 90. Agora, que se avoluma a perda de leitores por conta do noticiário gratuito da internet e a credibilidade corroída pelos sucessivos erros de informação, manipulações e distorções, os jornais se veem numa encruzilhada. O que fazer? A resposta é simples: jornalismo. Independente. Voltemos à reportagem e ofereçamos ao bendito leitor notícias apuradas, checadas, respeitando a pluralidade de opiniões e reforçando a multiplicidade de versões. A regra de ouro é voltarmos a fazer jornalismo. Não proselitismo. Mais substantivos, menos adjetivos. Dados factuais, não ilações. É simples. Quem sabe a imprensa recupera leitores?

* Jornalista, é assessor de imprensa e professor de jornalismo. Trabalhou no Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, O Globo e Correio Braziliense, entre outros jornais da imprensa nacional.

6 Comentários

  • [...] problema é quando a lógica do reprodutor de conteúdo se transfere para as redações. A imprensa hoje, como escrevi ao hermenauta, funciona assim : Caro Hermenauta, eu trabalho na imprensa há 12 [...]

  • beleza, obrigada, Olímpio.

    Dá um olhada:
    DOCUMENTÁRIO ATREVIDO

    O meu conto predileto, do livro Contos Negreiros, de Marcelino Freire.
    Fina ironia, que me toca. Remete à reflexão sobre mídia e cidadania. Chama-se Solar dos Príncipes.

    conto Solar dos Príncipes

    OUÇA AQUI

  • Jornais e revistas semanais (não incluídas no artigo), pelo contrário, não perderão leitores e igualar-se-ão à Internet e à TV, uma vez que aqueles, num paradoxo bem contemporâneo, sobem decadentemente e cada vez mais à estratosfera das amenidades e superficialidades, bem a gosto da mediocridade informativa da maioria da população – um dos pilares do poder de ocasião ou da vez.
    As pouquíssimas exceções, estas sim, morrerão.
    Blogs alternativos? Opção de poucos privilegiados e seus círculos fechados
    Se, mais do que nunca, o poder e seus donos são constituídos visceralmente por comerciantes do “toma-lá-dá-cá” travestidos de benfeitores, o que esperar da população e da mídia, sustentáculos daqueles?
    Não é difícil antever esse nivelamento por baixo de todos os ramos da informação: estamos numa nova era – a do populismo globalizado, crescente, marketeiro, no qual a mídia também está inserida.
    Não será surpresa se, num futuro bem próximo, encontrarmos algum capítulo para ler entre os muitos anúncios de um livro. Como, aliás, hoje já se vê em “grandes jornais” e “grandes revistas”.
    Triste era, essa nossa, ou o seu início. De perturbar o descanso eterno de jornalistas e colunistas como Carlos Castello Branco, Alceu Amoroso Lima e Carlos Drummond de Andrade, entre outros.

  • [...] por Olímpio Cruz Neto Há algumas semanas, a respeito da crise que a imprensa mundial enfrenta, tratei um pouco do tamanho do buraco e como a nossa mídia anda mal das pernas. O Observatório da Imprensa [...]

  • [...] coisa? Ué, para o leitor, certamente não muda nada. Para os jornais? Certamente não. O problema, como apontei lá atrás, é a credibilidade da imprensa que está sendo comprometida. O problema central é que nosso [...]

  • Tenho dinheiro para gastar. Tenho tempo para ler. Não compro jornais pois não sou masoquista para ficar sendo enganado sistematicamente – não estou falando de erros factuais mas de políticas de desinformação ativa.


Deixe uma resposta