9 Outubro, 2009...5:09 pm

Esperança e paz

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obama

Imagino que, a essa altura, os veteranos e os novos conservadores americanos devem estar estrebuchando. Como é que pode? Obama, prêmio Nobel da Paz? O presidente de Estados Unidos ganhou a indicação deste ano. A justificativa do Instituto Nobel foi que Obama merece o prêmio “por vir estimulando o desarmamento nuclear, por seus extraordinários esforços por reforçar a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos”.

A premiação surpreendeu meio mundo, já que eram considerados favoritos ativistas chineses e russos, uma senadora colombiana e até a Coalizão Contra as Bombas do Racismo, entre outras 200 candidaturas. Além do mais, os Estados Unidos estão mergulhados em duas guerras – Iraque e Afeganistão -, discute-se a possibilidade de aumentar os efetivos militares na terra dos talibãs e o homem está há apenas nove meses no poder. Efetivamente, Obama não fez nada, criticam, aqui e ali, algumas pessoas. Esperem aí!

O instituto apontou que o presidente dos Estados Unidos está sendo artífice de um “novo ambiente na política internacional” e que, graças “aos seus esforços, a diplomacia multilateral está recuperando sua posição central”, tendo “devolvido às Nações Unidas e outras instituições internacionais seu papel de protagonista”.

Para mim, tais justificativas bastam. Eu sou fã do Obama. Acho que um presidente que é capaz de escrever seus próprios discursos, num país como os Estados Unidos, mergulhados numa retórica violenta que beira a paranóia anti-comunista, já é um grande avanço. É um presidente capaz de citar trechos de discursos históricos na ponta da língua, é fã de Martin Luther King e de rock’n'roll… Além do mais, é amigo do Lula. E, como apontou Cynara Menezes, há alguns meses, em CartaCapital, o cara ainda “pega jacaré”.

Os extremistas de direita têm construído, diuturnamente, na internet e em todos os meios de comunicação ao seu alcance, um discurso de uma virulência assustadora até mesmo para o saudoso senador Joseph McCarthy, que nos anos 50 fez a festa com seu anti-comunismo e colocou meio mundo artístico e liberal no olho do furacão, em pleno Senado americano. A cantilena do perigo socialista nos Estados Unidos agora é uma piada. Mas é uma piada de mau-gosto em que muitos acreditam.

Para quem acha que estou exagerando, basta acessar o portal The People’s Cube ou ouvir as bobajadas ditas em tons proféticos de Rush Limbaugh. Quem acompanha a Fox News sabe o poder de fogo dessa corja. Há poucas semanas, no site Newsmax, o colunista John L. Perry chegou a falar na “possibilidade de que os militares tenham de intervir como último recurso para solucionar o problema Obama”. Para vocês verem do que esses caras são capazes. (O texto foi retirado do site da Newsmax, mas pode ser lido aqui).

“A campanha de ódio a Obama” como tratou a The New York Review of Books na primeira edição de outubro, dá bem o tom de como se processa a guerra da mídia neoconservadora americana e a Casa Branca. Os caras estão vendendo o golpe – alô, alô, Micheletti, já tens para onde ir quando Zelaya retomar o poder…

A situação é considerada tão crítica que o respeitável colunista Thomas Friedman chegou a ficar assustado com a comparação da situação do presidente Obama ao do líder israelense Isaac Rabin, assassinado pela linha dura, em 1995. “Não tenho problema com as críticas razoáveis, venham da direita ou da esquerda”, escreveu no New York Times. “Mas a extrema direita está começando a querer deslegitimar o poder e criar o mesmo clima que existia em Israel antes do assassinato de Rabin”. No Facebook, havia uma pesquisa que consultava os internautas sobre a possibilidade do presidente ser “assassinado”. Claro, depois da prensa do serviço secreto, o portal de relacionamentos retirou a pesquisa.

Apenas por conta desse ambiente interno de radicalização, imagino que o Nobel da Paz a Obama é capaz de despertar uma raiva ainda maior nos extremistas que só pensam em derrubar o presidente negro da Casa Branca. Daí o simbolismo que esse Nobel representa: a crença na esperança. Como escreveu hoje cedo, em seu blog, o escritor português José Saramago: “É possível que comece a dizer-se que o Prêmio Nobel da Paz foi prematuro, mas não o é se o tomarmos como um investimento… Graças a ele talvez Obama ganhe ainda maior consciência de quanto o necessitamos”.

1 Comentário

  • Oi

    Resolvi passar por aqui para ver seu blog, que me agradou muito aquando da minha primeira passagem, e vejo que não tem actualizado… Gostaria de pedir que desse que a sua opinião sobre um assunto que tem tido honras de abertura de telejornais: a polémica reportagem de Maitê Proença sobre Portugal e os portugueses. Gostaria de saber sua opinião jornalística porque em Portugal isto caiu muito mal mesmo. Cuspir em monumento património mundial, gozar com símbolo judeu (3 invertido) e até com o estilo manuelino não foi cool… mando o link para ter uma noção de como caiu mal:

    http://www.lux.iol.pt/nacionais/maite-proenca-saia-justa-portugal/1095189-4996.html


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